A HISTÓRIA DE UM TETRAPLÉGICO

arte tetra

Existem momentos em nossas vidas em que duvidamos de tudo, dispondo ao descrédito quase irremediável até mesmo as vitorias mais significativas e neste momento, exatamente neste momento, as pequenas coisas tomam proporções incríveis e também exponenciais. Um exemplo claro é receber um não de quem amamos; um não circunstancial que outrora fora corriqueiro assume contexto de término de relacionamento, final de amizade, de amor, em fim, final de vida.

Este é um início dramático e sei bem disso, no entanto, não reflete em nada como me encontro emocionalmente agora e sim como estive diversas vezes e, evidentemente, saí deste estado ferino diversas vezes.

Pode soar irônico, mas a ideia de início depressivo veio imediatamente após o privilégio que tive de ser único expectador da bela melodia do canto de um canário do cerrado que pousara próximo a mim depois de dois sobrevoos.

Aquele pequeno canário liberto e majestoso fez-me sentir tão livre quanto ele, sem que um pensamento destrutivo habitasse minha cabeça e me perguntei como aquela criatura pequena e frágil conseguira tal feito.

Confesso ter repensado quase a vida inteira, confesso ter relembrado dores e docilidades vividas, recebidas e também por mim proporcionadas. Repensei também meu acidente e minha tetraplegia que no dia 14 de janeiro deste ano de 2014 completarão 25 anos, mas deixarei as bodas de prata para outra oportunidade e volto ao canário libertador.

Continuando, no meio das reflexões, percebi que a liberdade sentida veio do amadurecimento e experiências que somente ao tempo pertencem. Nós não controlamos o tempo e contrariando o que diz o poeta Renato Russo em sua música “Tempo Perdido”, não temos todo o tempo do mundo, todavia, agora em concordância, “temos nosso próprio tempo”, temos uma única vida e na verdade, ou melhor, em minha verdade, temos sim é o poder de eternizar todos os momentos da vida para fazê-la completa, repleta de adereços, imagens e histórias a serem compartilhadas, pois guardar histórias é matar e morrer aos poucos e o esquecimento é a mais sofrível das mortes.

A apresentação solo do nobre canário durou poucos segundos e é exatamente de segundos que precisamos para escolhermos sermos felizes ao nosso modo ou tristes, também ao nosso modo e, em hipótese alguma, podemos culpar alguém por tristezas ou eleger um outro alguém como o detentor de nossas alegrias perenes.

Falando assim parece que dou à vida um ar de egoísmo, de que devemos viver sem dar a importância devida àqueles que nos cercam. 

Enganam-se! Lembram-se da palavra compartilhar?

Pois é… A vida, a felicidade, a vontade de mudanças devem ser compartilhadas como um tesouro e não entregues como quem a um ladrão entrega sem resistir seus bens mais preciosos. 

Mas calma! E o amor?

Apresento-lhes a única exceção. Somos aqueles que amam, e sim, também somos amados e quando compreendermos minimamente o quão a vida e o amor são unos nós…

Não posso continuar por não ter tamanha sabedoria para compreender a unidade entre vida e amor. Sei apenas que sou um privilegiado por viver e amar intensamente e mais nada.

Caso alguém venha a se perguntar como um simples canário conduziu-me a tais reflexões responderei de imediato com outra pergunta:

Quantas vezes você parou ou teve o privilégio de ouvir, de perto, um pássaro e sua melodia a encantar olhos, ouvidos e alma? 

Até a próxima!

Angelo Márcio

Angelo Márcio

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Olá! Sou Angelo Márcio, sou Assistente Social, Técnico em Informática, Palestrante e desenvolvedor de diversos projetos voltados às questões das Pessoas com Deficiência.

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