É na pluralidade de vozes, gestos, corpos e sons que a cultura se renova e a democracia se fortalece”
“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.” (Titãs)
O verso, imortalizado na voz dos Titãs, ecoa como um grito coletivo que atravessa gerações. Ele nos lembra que viver com dignidade não se limita à sobrevivência física; envolve também o direito à sensibilidade, à imaginação e à expressão. Cultura e arte não são luxos, mas dimensões fundamentais da existência humana e da cidadania.
Contudo, quando observamos a realidade das pessoas com deficiência, percebemos que esse direito ainda é, com frequência, negado ou negligenciado. As barreiras arquitetônicas e comunicacionais são apenas a face mais visível de uma exclusão que é também simbólica, institucional e cultural. A ausência de políticas consistentes de acessibilidade, a falta de estímulo à participação artística e o capacitismo que ainda atravessa as práticas culturais produzem uma dupla marginalização: a de quem é visto apenas como objeto de cuidado e não como sujeito de cultura.
Ter acesso à vida cultural significa muito mais do que poder entrar num teatro, museu ou show. É ter direito de criar, participar e ser reconhecido como alguém que produz sentido no mundo. A exclusão desse espaço é, portanto, uma forma de silenciamento, uma negação da potência criadora que habita em cada pessoa.
Quando a sociedade restringe a arte às mãos de poucos, ela empobrece a si mesma. Porque é na pluralidade de vozes, gestos, corpos e sons que a cultura se renova e a democracia se fortalece.
A arte, por sua natureza, é uma linguagem de resistência. Ela desloca fronteiras, questiona padrões, desestabiliza o que se convencionou chamar de normal. No corpo que dança, na voz que desafia o silêncio, na presença que ocupa o espaço de forma singular, emerge uma estética da diferença. Pessoas com deficiência, quando criam e se expressam, revelam outros modos de perceber o mundo e de construir beleza e, ao fazê-lo, desafiam as estruturas que historicamente tentaram contê-las.
Nesse contexto, a musicoterapia se coloca como uma aliada na construção do direito à cultura e à cidadania. Embora se configure como uma prática terapêutica, ela utiliza a música como linguagem viva para favorecer processos de comunicação, interação e expressão, aspectos que também sustentam o acesso à vida cultural.
No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a musicoterapia atua no campo do cuidado, mas o faz reconhecendo a música como linguagem humana e social. Cantar, tocar, improvisar e ouvir tornam-se gestos de encontro: consigo, com o outro e com o território. Em contextos de vulnerabilidade, marcados por violência, negligência institucional, insegurança alimentar ou moradia precária, o fazer musical pode significar o resgate da própria humanidade. Em cada som produzido, em cada silêncio acolhido, há um convite à escuta, à expressão e à reconstrução de vínculos.
Assim, a musicoterapia não substitui a arte, mas cria pontes de acesso a ela. Ao favorecer processos de comunicação, de ampliação da autonomia e de reconexão com o próprio corpo, contribui para que pessoas com deficiência possam participar mais plenamente da vida cultural.
Garantir o direito à cultura e à arte para pessoas com deficiência é um imperativo ético, político e civilizatório. Significa romper com a lógica assistencialista e compreender que o cuidado, quando atravessado pela escuta e pela sensibilidade, também é um caminho de transformação social. Afinal, o que está em jogo não é apenas o acesso a atividades artísticas, mas o direito de ser reconhecido como sujeito pleno, capaz de criar, sentir e participar da vida coletiva.
Enquanto a arte seguir sendo privilégio, a cidadania seguirá incompleta. E enquanto houver quem cante, toque ou escute em resistência, haverá sempre um modo de reexistir.
*Deyse Araújo é musicoterapeuta. Atende pessoas com deficiência e autismo pelo SUS.
*Conteúdo originalmente publicado no Brasil de Fato





