Falta de acessibilidade digital ainda é desafio para pessoas com deficiência

Pesquisa da UFSM investiga consequências da falta de acessibilidade em veículos de comunicação

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Foto: Pexels

No dia a dia, Fernanda Taschetto, técnica-administrativa na UFSM e pessoa com deficiência visual, tem o hábito de se informar sobre os acontecimentos locais e mundiais. Com o uso de softwares de leitura em seu celular e computador, ela acessa portais de notícias e exercita sua cidadania, assim como qualquer pessoa. Esse processo parece simples e rotineiro. No entanto, será que ele é igualmente acessível a todos?

Em 2015, a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) foi criada. Com isso, tornou-se obrigatória a acessibilidade em sites de empresas e órgãos públicos. De maneira mais específica, as diretrizes, baseadas nas Web Content Accessibility Guidelines, passaram a exigir que os sites tivessem legendas em vídeos, descrição de imagens, contraste adequado, navegação por teclado, formulários corretamente identificados, links descritivos e ausência de elementos piscantes. Contudo, mesmo com esse avanço legal, os números mostram retrocessos.

Conforme relatório da BigDataCorp em parceria com o Movimento Web para Todos, que analisou 26,3 milhões de sites ativos no Brasil, apenas 2,9% dos sites brasileiros eram acessíveis, uma queda de 3,3% em relação a 2023. Essa identificação ocorreu por meio de testes de acessibilidade nos sites.

Em relação aos portais de notícias, o estudo revelou uma leve melhora de 3,4% nos padrões de acessibilidade em comparação a 2023. No entanto, esse número ainda é pequeno, já que 96,6% dos sites analisados continuaram apresentando falhas. Detalhes da metodologia adotada no estudo de 2023 e na edição de 2024 podem ser conferidos no site do Movimento Web para Todos.

Tanto Fernanda quanto os desenvolvedores da pesquisa observam que os principais problemas estão relacionados às estruturas textuais, à organização de hiperlinks e à disponibilidade e disposição de imagens com descrição. “Quando reportagens utilizam vídeos e imagens sem audiodescrição, existe uma lacuna na compreensão plena da notícia. Uma fotografia ou vídeo que mostra, por exemplo, como realizar um exercício físico, sem audiodescrição, não nos dá a possibilidade de realizá-lo”, exemplifica.

Quando a notícia é barreira

Esse contexto inspirou a pesquisa “Circulação e Acessibilidade Comunicativa: quando o acesso à notícia é barreira”, publicada em julho de 2025 pela jornalista e doutoranda do Departamento de Comunicação Social da UFSM, Samara Wobeto, sob orientação da professora Viviane Borelli, docente do mesmo departamento.

Conforme Samara, o estudo se baseia no conceito de “não circulação”. “Essa ideia, proposta pelo pesquisador de comunicação Rafael Grohmann, aponta que a informação não circula de forma indefinida e, por fim, reforça a existência de barreiras que a impedem de chegar a certos contextos”, explica.

A doutoranda destaca que essas barreiras são variadas e que a pesquisa buscou incluir a falta de acessibilidade digital como uma delas. “Nós fomos percebendo que essa circulação não acontece para pessoas com deficiência quando não há recursos acessíveis. Quando um veículo não oferece o mínimo necessário, ele impede que essa pessoa escolha consumir informação”, afirma.

Essa limitação, segundo ela, restringe o público com deficiência a consumir apenas o conteúdo que consegue acessar , o que não significa, necessariamente, que seja de qualidade. “Na pesquisa, identificamos que certos veículos, por exemplo, realizavam propaganda antivacina e eram sites com recursos acessíveis. A principal questão é: qual o tipo de informação que as pessoas com deficiência têm a oportunidade de acessar?”, questiona a jornalista.

Samara também aponta uma contradição: veículos tradicionais que prezam pela divulgação científica e pela democracia, mas não aplicam recursos de acessibilidade, acabam excluindo parte da população. “Esses veículos, que possuem boa apuração, deixam de fora um grande grupo e vão contra o preceito democrático e cidadão. Se olharmos para o código de ética do jornalismo, uma das principais diretrizes é o acesso à informação para todos os públicos”, observa.

Para a pesquisadora, essa carência técnica contribui para a desinformação. “Já é naturalmente difícil combater as fake news no cenário digital de hoje. Para pessoas com deficiência, a dificuldade é ainda maior, porque elas não conseguem acessar qualquer site para verificar uma informação, apenas aqueles que possuem acessibilidade”, alerta.

Ela reforça que essa incapacidade de comparar diferentes fontes pode ter consequências graves, sobretudo para públicos já fragilizados e marginalizados no acesso à informação. “Além das pessoas com deficiência, o risco aumenta quando se considera a perspectiva territorial, o acesso à internet, a alfabetização midiática e outras questões que se entrelaçam nesse contexto”, elucida.

Como saber se um site é acessível?

Apesar de existirem recursos acessíveis, muitos ainda desconhecem os meios para usufruir deles. Tendo isso em mente, a reportagem da Agência de Notícias trouxe algumas dicas para identificar se um site possui ou não acessibilidade digital em computadores ou notebooks.

Essa avaliação exige, muitas vezes, o uso de softwares leitores de tela, tanto em celulares quanto em computadores. O “VLibras”, por exemplo, é uma ferramenta gratuita do governo brasileiro que traduz conteúdos digitais para a Língua Brasileira de Sinais. Outra ferramenta eficiente é o “NVDA”, que permite que usuários cegos ou com deficiência visual possam acessar e interagir com o sistema operacional Windows. Ambos os aplicativos são gratuitos.

Com esses parâmetros ajustados, passe o mouse sobre as imagens ou utilize um leitor de tela para conferir se fotos, ilustrações e infográficos importantes possuem descrição clara. Outro método é clicar com o botão direito do mouse sobre determinada imagem, selecionar a opção “Inspecionar” e verificar, no código da imagem, se ela possui texto alternativo. Vale lembrar que imagens meramente decorativas não precisam de texto alternativo, mas elementos funcionais, como botões e links, devem informar exatamente sua função.

Em seguida, teste a navegação usando apenas o teclado, com a tecla “TAB” para avançar entre os itens e “Enter” para acessar. Todos os menus, botões e formulários devem funcionar sem o uso do mouse, e o foco, indicado por uma borda ou destaque, precisa estar visível para mostrar onde você está na página.

Por fim, observe se as letras são legíveis em relação ao fundo, considerando pessoas com baixa visão ou daltonismo. Ferramentas como o “Contrast Checker” ajudam a medir a legibilidade. O tamanho mínimo recomendado é de 14 pt em negrito ou 18 pt em regular.

Além disso, existem outras formas de identificar os padrões de acessibilidade. Sites como o “WAVE”, por exemplo, analisam o código e o conteúdo da página para identificar problemas e acertos. A plataforma, desenvolvida pela universidade americana do estado de Utah, apresenta um resumo com erros, alertas, elementos com boas práticas e estrutura de títulos e hierarquia de conteúdo. O uso é gratuito, basta acessar, inserir o link do site que se deseja analisar e visualizar as características daquele ambiente virtual.

Enquanto a transformação digital não alcança a todos, Fernanda afirma que a acessibilidade digital deve ser entendida não apenas como obrigação legal, mas como oportunidade de inclusão. “Somos consumidores de produtos, notícias, conhecimento. As empresas que entendem isso, que têm essa visão, investem em acessibilidade”, reforça.

Nesse sentido, Samara reflete sobre o papel dos profissionais da comunicação. “É importante fazer com que a acessibilidade seja pensada de forma transversal a toda a formação nos cursos de comunicação, para que se incorpore no processo produtivo de maneira natural. É uma questão simples e complexa ao mesmo tempo”, encerra.

Texto e artes gráficas: Pedro Moro, estudante de Jornalismo e bolsista na Agência de Notícias
Edição: Mariana Henriques, jornalista

*Matéria original em UFSM

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