O que é “Crip Time” e por que precisamos falar sobre o tempo das pessoas com deficiência

O conceito questiona prazos e ritmos construídos a partir de um corpo considerado padrão e mostra como a falta de acessibilidade também controla o tempo das pessoas com deficiência.

Sou o Angelo e estou sorrindo sentado em cadeira de rodas, vestindo camisa social branca, gravata preta e óculos, com fundo de parede verde.
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Ilustração minimalista com uma cadeirante, um homem cego e uma mulher descansando diante de um relógio e da pergunta sobre o que é crip time.
O crip time questiona a imposição de um único ritmo e defende que o tempo também seja organizado considerando as necessidades das pessoas com deficiência.

Eu nunca tinha ouvido falar em crip time até me deparar com esse conceito nos estudos sobre deficiência. A expressão, que pode ser traduzida como “tempo crip” ou “tempo aleijado”, ajuda a nomear uma experiência conhecida por muitas pessoas com deficiência: viver em uma sociedade que organiza horários, prazos e compromissos como se todos os corpos funcionassem da mesma maneira.

A ideia não se resume a chegar atrasado ou pedir mais alguns minutos para concluir uma tarefa. Ela questiona quem definiu o tempo considerado normal e quais corpos foram ignorados nessa definição. Para uma pessoa com deficiência, uma atividade simples pode envolver cuidados pessoais, uso de tecnologias assistivas, ajuda de terceiros, dor, fadiga, transporte inacessível ou longos períodos de espera. Quando escolas, empresas, serviços e eventos desconsideram essas condições, o relógio também se transforma em uma barreira.

De onde vem a expressão crip time

A palavra crip vem de cripple, termo em inglês usado historicamente de maneira ofensiva contra pessoas com deficiência. Parte do movimento e dos estudos da deficiência se apropriou da palavra e transformou a antiga injúria em identidade política, crítica e resistência. É um processo semelhante ao que ocorre quando grupos atingidos por uma ofensa ressignificam o termo e passam a usá-lo em seus próprios debates.

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Essa apropriação não significa que qualquer pessoa possa usar a palavra sem cuidado. Nem toda pessoa com deficiência se identifica com crip ou com a tradução “tempo aleijado”. No Brasil, também aparecem as formas “tempo crip” e “temporalidade deficiente”. A escolha do termo deve respeitar o contexto e a maneira como as próprias pessoas com deficiência desejam ser nomeadas.

A teoria crip dialoga com os estudos da deficiência e critica a corponormatividade, isto é, a expectativa de que exista um corpo normal, independente, produtivo e disponível o tempo inteiro. Como explica Pedro Lopes, “a categoria crip é uma abreviação de crippled, traduzido para o português como aleijado” (LOPES, 2025, p. 14). O autor mostra que o termo transforma uma antiga ofensa em afirmação de uma diferença crítica e permite questionar a ideia de que a capacidade corporal sem deficiência seja natural, estável e preferível para todas as pessoas.

As teorias crip buscam produzir conhecimento a partir das experiências das próprias pessoas com deficiência. Bruna Amato, Lina Ferrari de Carvalho e Marivete Gesser descrevem essa proposta como uma “epistemologia de produção de saberes localizados a partir das experiências de pessoas com deficiência” (AMATO; CARVALHO; GESSER, 2022, p. 10). O conceito, portanto, não analisa apenas o corpo individual, também as normas culturais que classificam, hierarquizam e excluem.

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Alison Kafer, autora de Feminist, Queer, Crip, é uma das principais referências do conceito. Em uma passagem muito citada, a autora resume a proposta: “o tempo aleijado dobra o relógio para que siga os corpos e mentes deficientes” (KAFER, 2013, p. 25 apud FIETZ, 2023, p. 8, tradução de Fietz).

Isso muda a pergunta. Em vez de perguntar por que a pessoa não acompanhou o ritmo, precisamos perguntar se o prazo, o transporte, o atendimento e o ambiente foram planejados para incluí-la.

Como o tempo se transforma em barreira

Uma pessoa tetraplégica pode precisar de tempo para se levantar, tomar banho, vestir-se, fazer o cateterismo, organizar o funcionamento intestinal e posicionar-se com segurança na cadeira de rodas. Esses cuidados não são falta de organização. Fazem parte da vida e podem mudar conforme a saúde, a disponibilidade de assistência pessoal e as condições daquele dia.

O mesmo ocorre com quem convive com dor crônica, fadiga, deficiência intelectual, autismo, deficiência psicossocial ou doenças que produzem sintomas imprevisíveis. Há dias em que uma tarefa é possível e outros em que exige mais pausas ou precisa ser adiada.

Pessoas cegas e surdas também podem perder tempo quando sites não são acessíveis, documentos não funcionam com leitores de tela, vídeos não têm legenda ou um serviço não oferece comunicação adequada.

O transporte expõe essa desigualdade com clareza. Um elevador quebrado, um ônibus sem acessibilidade ou uma calçada interrompida podem transformar um percurso curto em horas de espera. Depois, a pessoa ainda pode ser chamada de atrasada. O problema não está em um suposto ritmo lento do corpo, mas na estrutura que não ofereceu condições iguais de deslocamento.

O estudo brasileiro Espera, cuidado e deficiência, de Helena Fietz, aproxima o crip time da experiência de mães de adultos com deficiência intelectual. A autora observa que “o tempo aleijado desafia esse ideal de um tempo produtivo” (FIETZ, 2023, p. 8).

A pesquisa mostra que consultas, benefícios, serviços e decisões institucionais interferem no cotidiano das famílias, enquanto o futuro muitas vezes é organizado pela preocupação sobre quem prestará cuidado mais adiante.

Ellen Samuels acrescenta outra dimensão importante em Six Ways of Looking at Crip Time. Para ela, o tempo crip pode oferecer flexibilidade e reconhecimento, mas não deve ser romantizado. A necessidade de cancelar compromissos, aguardar uma recuperação incerta ou permanecer afastado de outras pessoas também pode gerar perda, frustração e isolamento. Respeitar o tempo crip exige reconhecer tanto a autonomia quanto essas dificuldades concretas.

O que muda quando respeitamos o tempo crip

Respeitar diferentes temporalidades não significa abandonar toda responsabilidade ou considerar que horários nunca importam. Significa construir formas mais acessíveis de cumprir compromissos, sem penalizar pessoas por necessidades ligadas à deficiência ou pelas barreiras que a sociedade impõe.

Na educação, isso pode envolver tempo adicional em provas, materiais enviados com antecedência, intervalos, reposição de atividades e diferentes formas de participação. No trabalho, pode incluir horário flexível, trabalho remoto quando possível, pausas para cuidados pessoais e avaliação baseada na qualidade do que foi realizado, sem premiar apenas quem permanece mais horas disponível.

Em consultas, reuniões e eventos, o respeito ao tempo crip aparece quando há tolerância diante de atrasos provocados pelo transporte acessível, intervalos suficientes, possibilidade de participação on-line e programação que não trate as necessidades de acessibilidade como inconvenientes.

Também aparece no atendimento público, quando processos destinados a pessoas com deficiência deixam de exigir deslocamentos repetidos e esperas desnecessárias.

A pandemia de covid-19 tornou algumas dessas possibilidades mais visíveis. Trabalho remoto, aulas virtuais, consultas a distância e participação on-line, antes negados a muitas pessoas com deficiência, foram adotados rapidamente quando a população sem deficiência também passou a precisar deles. A experiência revelou que várias regras apresentadas como impossíveis de mudar eram, na verdade, escolhas institucionais.

O tempo crip amplia o próprio conceito de acessibilidade. Rampas, elevadores, Libras, legendas e leitores de tela continuam indispensáveis, mas a inclusão também depende de horários, prazos e ritmos que considerem a diversidade humana. Uma porta acessível perde parte de seu sentido se a pessoa não consegue atravessá-la dentro do único horário que a instituição decidiu aceitar.

Tempo também é uma questão de direitos

Falar em crip time é reconhecer que o capacitismo não está apenas nas atitudes ofensivas ou na falta de adaptações físicas. Ele também aparece quando produtividade, independência e rapidez são usadas para medir o valor de uma pessoa.

Quem precisa de mais tempo é tratado como incapaz, desinteressado ou improdutivo, mesmo quando enfrenta obstáculos que poderiam ser eliminados.

A resposta não deve ser uma concessão individual feita por pena. Precisamos de políticas de acessibilidade, adaptações razoáveis e serviços organizados para diferentes realidades. A inclusão começa quando a sociedade deixa de exigir que todas as pessoas acompanhem um único relógio e passa a assumir sua responsabilidade pela remoção das barreiras.

Conhecer o conceito de crip time oferece um novo modo de enxergar situações que muitas pessoas com deficiência vivem todos os dias. O nome pode ser novo, mas a experiência não é.

Quando compreendemos que o tempo também pode excluir, percebemos que respeitar diferentes ritmos é parte do direito à educação, ao trabalho, à saúde, à cultura e à participação social.


Referências

AMATO, Bruna; CARVALHO, Lina Ferrari de; GESSER, Marivete. As teorias queer e crip no rompimento das epistemologias hegemônicas da Psicologia. Revista Interamericana de Psicología, v. 56, n. 3, e1714, 2022.

FIETZ, Helena Moura. Espera, cuidado e deficiência: as produções do tempo na trajetória de mães de adultos com deficiência intelectual. Cadernos Pagu, n. 67, e236716, 2023.

KAFER, Alison. Feminist, Queer, Crip. Bloomington: Indiana University Press, 2013.

LOPES, Pedro. Deficiência na teoria: corpo, desejo e dor nos estudos da deficiência. Revista Apae Ciência, v. 23, n. 1, p. 9–24, jan./jun. 2025.

SAMUELS, Ellen. Six Ways of Looking at Crip Time. Disability Studies Quarterly, v. 37, n. 3, 2017.


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