Eleitos para a Câmara em 2027 representarão apenas 1,17% dos parlamentares. A presença importa, mas precisa se transformar em compromisso com inclusão e justiça social.
Seis deputados com deficiência foram eleitos para a Câmara dos Deputados na legislatura de 2027 a 2031. Em uma Casa com 513 cadeiras, eles representarão apenas 1,17% dos parlamentares. É uma presença que merece reconhecimento, mas também uma pergunta: quanto espaço as pessoas com deficiência realmente têm nas decisões do país?
Segundo a Agência Câmara, dois eleitos declararam deficiência auditiva, dois deficiência física, um deficiência visual e um transtorno do espectro autista. Na eleição de 2022, foram dois eleitos que declararam deficiência. As candidaturas também cresceram: passaram de 172 naquele ano para 205 em 2026.
Os números mostram avanço na participação eleitoral. Mas ocupar uma cadeira é apenas o começo. O que esperamos desses mandatos é atuação concreta para enfrentar as barreiras que atravessam nossas vidas.
Representatividade precisa ir além da presença
Como pessoa com deficiência, considero importante ver pessoas que conhecem essas barreiras por experiência própria ocupando espaços de poder. Quem depende de acessibilidade, de transporte adequado ou de apoio para atividades cotidianas pode levar ao debate questões que frequentemente ficam fora das prioridades políticas.
Mas nenhuma experiência individual resume a realidade de todas as pessoas com deficiência.
Há diferenças de renda, raça, gênero, território e necessidade de apoio. Uma pessoa com deficiência que dispõe de recursos para contratar assistência vive uma realidade diferente daquela que depende exclusivamente dos serviços públicos e da renda familiar para sobreviver.
Por isso, representatividade exige escuta. Exige diálogo com movimentos, associações e pessoas que continuam sem acesso aos espaços onde as decisões acontecem.
Também exige coerência. Ter uma deficiência não garante, automaticamente, compromisso com os direitos dessa população. Esse compromisso precisa aparecer nas propostas, nos votos e na fiscalização das políticas públicas.
Não basta falar em inclusão durante a campanha. É preciso defender condições para que ela aconteça.
Seis mandatos, uma responsabilidade coletiva
A cobrança sobre esses parlamentares deve ser concreta: como vão atuar em relação ao BPC, à educação inclusiva, à acessibilidade, ao trabalho e aos serviços de cuidado e apoio?
Essas questões não podem ficar restritas a homenagens, datas comemorativas ou discursos sobre superação. Precisam entrar nas decisões sobre orçamento e nas prioridades do Congresso.
E essa responsabilidade não pertence apenas aos deputados com deficiência. Todos os 513 parlamentares devem responder pelos direitos da população que representam. Não podemos aceitar que a inclusão seja tratada como assunto de uma pequena bancada, enquanto o restante da Câmara se mantém distante.
Há ainda uma distinção importante nos dados: a Câmara registrava cinco parlamentares com deficiência em 2025, incluindo suplentes que assumiram mandatos. Portanto, os seis eleitos em 2026 não significam que a representação atual tenha triplicado. O registro oficial dos novos deputados dependerá do cadastramento na Casa.
A presença de pessoas com deficiência no Parlamento merece ser valorizada. Mas nosso horizonte precisa ser maior do que contar cadeiras.
Queremos participação com poder de decisão. Queremos políticas construídas com quem enfrenta as barreiras. Queremos que os direitos sejam defendidos também quando isso exigir enfrentar interesses, disputar recursos e contrariar aliados.
“Nada sobre nós sem nós” precisa orientar o mandato inteiro.
Porque deficiência não é limite. Barreiras são — inclusive as que impedem nossa participação nas decisões políticas.
Fontes:
- Agência Câmara — Câmara terá seis deputados com deficiência em 2027, publicada em 9 de outubro de 2026.
- Correio do Povo — Câmara terá seis deputados com deficiência em 2027, matéria enviada como referência.
Descubra mais sobre Deficientes Indignados
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


