A relação entre tetraplegia e transpiração envolve uma consequência da lesão medular na altura do pescoço que muita gente desconhece: a dificuldade do corpo para se resfriar. Quando se fala em tetraplegia, geralmente se pensa na perda de movimentos a partir da lesão e no uso da cadeira de rodas, mas as alterações podem atingir também funções que acontecem automaticamente, como o controle da temperatura e a produção de suor.
É preciso esclarecer, porém, que nem toda pessoa tetraplégica deixa de transpirar completamente. Algumas apresentam redução ou ausência de suor em grandes áreas do corpo, enquanto outras continuam suando em determinadas regiões. Também pode ocorrer transpiração excessiva. Essas diferenças dependem do nível da lesão e do comprometimento das vias nervosas responsáveis por essas funções.
Tetraplegia e transpiração: o que a lesão medular modifica?
A transpiração ajuda a controlar a temperatura corporal. Quando o suor evapora na superfície da pele, parte do calor é liberada. Esse processo depende de sinais do sistema nervoso autônomo, responsável por funções que não precisam da nossa vontade para acontecer.

Na tetraplegia decorrente de lesão medular cervical, a comunicação entre o cérebro e as estruturas que controlam a transpiração pode ser interrompida ou prejudicada. As glândulas que produzem suor, mesmo presentes, podem deixar de receber adequadamente os comandos necessários para responder ao calor.
Por isso, muitas pessoas tetraplégicas, também chamadas informalmente de tetras, apresentam pouca ou nenhuma transpiração em regiões abaixo da lesão, incluindo partes do tronco e dos membros. Entretanto, essa distribuição não é igual para todas, pois o nível da lesão ajuda a compreender o problema, mas não permite definir sozinho como cada pessoa vai transpirar. Pessoas com tetraplegia não podem ser tratadas como se apresentassem as mesmas condições e respostas do corpo e isso vale para todos os corpos, inclusive aqueles sem deficiência.
A ausência de suor é chamada de anidrose, enquanto a transpiração em quantidade reduzida recebe o nome de hipoidrose. Essas alterações também podem ter outras causas, incluindo medicamentos e doenças, e precisam ser avaliadas quando surgem ou mudam de padrão.
Entre os medicamentos que podem reduzir a transpiração estão a oxibutinina, princípio ativo do Retemic, e a Mensilato de Solifenacina. São medicamentos utilizados para controlar sintomas urinários e que podem fazer parte do tratamento da bexiga neurogênica que muito afeta os Tetras, conforme a avaliação médica. Sua ação antimuscarínica pode diminuir a produção de suor e aumentar o risco de superaquecimento em ambientes quentes. Por isso, quem os utiliza deve conversar com o profissional responsável sobre os cuidados necessários, sem suspender ou modificar o tratamento por conta própria.
Não suar não significa não sentir calor, nem estar protegido dele. Mesmo com a pele seca, a temperatura interna pode aumentar. Além disso, a percepção de calor pode estar alterada após a lesão medular, tornando importante observar outros sinais do corpo e as condições do ambiente.
Calor e alguns cuidados
Quando a transpiração fica comprometida em uma área extensa, o corpo perde parte de sua capacidade de eliminar calor. Isso aumenta o risco de hipertermia, que é a elevação da temperatura corporal. Permanecer em um veículo quente, em uma fila sob o sol ou em um espaço abafado, por exemplo, pode provocar grande desconforto e levar a um aquecimento perigoso do corpo, exigindo medidas para reduzir a temperatura.
Alguns cuidados ajudam a diminuir esse risco:
- Planejar saídas para horários menos quentes e prever pausas em locais frescos.
- Preferir ambientes climatizados durante períodos de calor intenso.
- Usar roupas leves e respiráveis.
- Manter a hidratação conforme a orientação individual, considerando eventuais restrições e a rotina de cuidados.
- Utilizar panos umedecidos com água fresca para ajudar no resfriamento, evitando gelo diretamente sobre a pele.
- Observar a temperatura dos apoios e das partes da cadeira de rodas expostas ao sol.
Dor de cabeça, tontura, náusea e vermelhidão podem indicar superaquecimento. Nesses casos, é necessário sair do calor, iniciar medidas de resfriamento e buscar avaliação se os sintomas persistirem ou piorarem. Confusão mental, perda de consciência, convulsões ou temperatura muito elevada exigem atendimento de emergência. Não se deve oferecer líquidos a uma pessoa inconsciente.
Outro cuidado importante é não atribuir toda alteração ao calor. O suor intenso e repentino, especialmente acompanhado de dor de cabeça forte e aumento da pressão arterial, pode indicar disreflexia autonômica, uma complicação potencialmente grave da lesão medular que exige avaliação imediata e cuidados específicos.
Há também uma dimensão social que não pode ser ignorada. Uma pessoa que precisa interromper uma atividade para se refrescar não está exagerando: está respondendo a uma necessidade do próprio corpo. Essa necessidade deve ser levada a sério, sem brincadeiras ou piadas que diminuam o que ela está sentindo, mesmo quando feitas com a intenção de “amenizar a situação”.
Conhecer a relação entre tetraplegia e transpiração ajuda a cuidar da saúde e a combater julgamentos e, enfim, a participação social depende de condições concretas para que diferentes corpos possam permanecer nos espaços com segurança, equidade, respeito e dignidade.
Fontes
- Shirley Ryan AbilityLab.
- Christopher & Dana Reeve Foundation.
- MedlinePlus — National Library of Medicine.
- MSKTC.
- CDC/NIOSH.
- DailyMed — oxibutinina.
- DailyMed — solifenacina.
- Associação Europeia de Urologia.
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